Levantamento do IBGE aponta aumento no acesso à internet, mas revela que milhões de brasileiros ainda enfrentam limitações por falta de equipamentos e conexão adequada - © Marcelo Camargo/Agência Brasil

Porto Velho, RO — O acesso à internet continua avançando no Brasil, mas a inclusão digital ainda ocorre de forma desigual. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios sobre Tecnologia da Informação e Comunicação (PNAD-TIC 2026), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 90,5% da população brasileira utilizava a internet em 2025. Apesar do crescimento, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para acessar serviços essenciais por limitações de infraestrutura e equipamentos.

O levantamento revela que 10,7% dos domicílios brasileiros dependem exclusivamente da internet móvel para acessar plataformas digitais, enquanto 59,2% das residências não possuem computador ou tablet. Segundo especialistas, essa realidade compromete o acesso à educação, aos serviços públicos, ao mercado de trabalho e às oportunidades oferecidas pela economia digital.

A situação é exemplificada pela Comunidade do Pilar, localizada no Recife Antigo. Mesmo estando ao lado do Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia do Brasil, responsável por faturamento superior a R$ 7 bilhões em 2025, muitos moradores ainda convivem com dificuldades para acessar tecnologia básica.

Levantamento realizado com apoio da Universidade das Nações Unidas aponta que a maior parte das famílias da comunidade possui renda de até um salário mínimo e meio, depende de trabalho informal e encontra dificuldades para adquirir computadores ou contratar serviços de internet fixa.

Para a líder comunitária Ana Cláudia Miguel, a desigualdade tecnológica permanece evidente mesmo sem barreiras físicas. Segundo ela, existe uma separação entre quem consegue acessar as oportunidades geradas pela economia digital e quem permanece excluído desse processo.

A estudante Eurídize Lima relata que precisou interromper o curso superior de Análise e Desenvolvimento de Sistemas por não possuir recursos para comprar um notebook. Conforme explica, durante os primeiros períodos foi possível acompanhar parte das atividades utilizando apenas o telefone celular, porém as disciplinas voltadas à programação exigiam um computador, tornando inviável a continuidade da graduação.

Posteriormente, a estudante optou por cursar Gestão Financeira na modalidade de ensino a distância, acompanhando as aulas exclusivamente pelo celular.

A advogada e especialista em telecomunicações Flávia Lefèvre destaca que muitos brasileiros possuem acesso apenas por meio de planos móveis com franquias limitadas, que restringem a navegação após o consumo dos dados contratados. Segundo ela, essa limitação prejudica o exercício da cidadania, uma vez que diversos serviços públicos, como inscrição em programas sociais, emissão de documentos e declarações fiscais, dependem da internet.

A especialista também critica práticas comerciais que mantêm o acesso somente a determinados aplicativos após o fim da franquia de dados, afirmando que esse modelo pode comprometer o princípio da neutralidade da rede, previsto no Marco Civil da Internet.

O presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, reconhece que ainda existe uma dívida social entre o polo tecnológico e as comunidades vizinhas. Segundo ele, iniciativas como bolsas universitárias integrais destinadas aos moradores do Pilar vêm sendo implementadas, mas a falta de equipamentos e infraestrutura continua sendo um dos principais obstáculos para ampliar o acesso às oportunidades.

Especialistas ressaltam que ampliar apenas a cobertura de internet não é suficiente para garantir inclusão digital. Também são necessários investimentos em computadores, formação tecnológica, infraestrutura e acesso contínuo às ferramentas digitais, permitindo reduzir desigualdades sociais e ampliar oportunidades de educação, empreendedorismo e inserção no mercado de trabalho.

Embora os indicadores nacionais demonstrem avanço na conectividade, comunidades como o Pilar evidenciam que a inclusão digital somente será efetiva quando acesso à internet, equipamentos e capacitação tecnológica caminharem juntos.