Performance nas arquibancadas chama atenção na Copa do Mundo de 2026 e resgata a memória de Patrice Lumumba - © Reuters/Eloisa Sanchez/Proibida reprodução

Porto Velho, RO — Em meio ao clima da Copa do Mundo de 2026, uma performance nas arquibancadas tem chamado atenção ao transformar o estádio em espaço de reflexão histórica e política. O torcedor congolês Michel Nkuka Mboladinga tem encenado o ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo, Patrice Lumumba, figura central do pan-africanismo e da luta anticolonial no continente africano.

Imóvel durante as partidas e com o braço erguido, Mboladinga reproduz a pose de uma estátua de Lumumba instalada em Kinshasa, capital congolesa. A encenação, apelidada de “estátua viva”, tem se destacado entre torcedores e viralizado nas arquibancadas do torneio.

Na última terça-feira (23), o congolês levou sua performance ao jogo entre República Democrática do Congo e Colômbia, em Guadalajara, no México. Antes disso, ele tentou acompanhar a estreia de sua seleção nos Estados Unidos, mas não conseguiu entrada no país devido a restrições relacionadas ao surto de ebola no Congo.

Sem visto norte-americano, Mboladinga deve retornar a Kinshasa, onde acompanha a campanha da seleção congolesa, apelidada de “Leopardos”. O próximo jogo está previsto contra o Uzbequistão.

Performance como símbolo político

Para pesquisadores e especialistas em história africana, a encenação ultrapassa o campo esportivo e se torna um gesto político. A professora Maria do Carmo Rebouças, da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFRB), avalia que a ação remete à luta pela autodeterminação dos povos africanos e à crítica ao legado colonial.

Segundo ela, a figura de Lumumba representa a busca por soberania política e controle dos recursos naturais do continente.

O professor Felipe Paiva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), também destaca que a performance dialoga com outras lideranças africanas que enfrentaram processos de descolonização e acabaram assassinadas, como Thomas Sankara e Amílcar Cabral.

“As independências africanas foram conquistadas com muito sangue, suor e lágrimas”, afirmou o pesquisador.

Silêncio e conflitos no Congo

Durante a partida contra a Colômbia, Mboladinga realizou um gesto simbólico ao levar o dedo à têmpora e cobrir a boca com a mão. A interpretação feita por especialistas é de que o movimento denuncia o silêncio internacional diante dos conflitos e da exploração de recursos naturais na República Democrática do Congo.

O professor Nuno Carlos de Fragoso Vidal, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), classifica a situação como uma “guerra esquecida”, marcada por anos de violência e interferência externa.

Segundo ele, a instabilidade no país está diretamente ligada à disputa por recursos minerais e à falta de atenção da comunidade internacional.

Quem foi Patrice Lumumba

Patrice Lumumba foi o primeiro líder democraticamente eleito da República Democrática do Congo após a independência da Bélgica, em 1960. Defensor do pan-africanismo, ele defendia que as riquezas naturais do país fossem utilizadas em benefício da população congolesa.

Seu governo enfrentou forte instabilidade durante o contexto da Guerra Fria e acabou sendo deposto e assassinado. O corpo foi destruído para impedir sua identificação, em um dos episódios mais marcantes da história política africana.

Em 2022, a Bélgica reconheceu responsabilidade moral pelo assassinato e devolveu à família um dente do ex-líder, mantido por décadas como relíquia.

Legado e debates sobre reparação histórica

Especialistas apontam que o legado de Lumumba permanece atual diante dos conflitos e da exploração econômica no Congo. A Bélgica, antiga potência colonial, é citada como parte central dessa história de dominação, iniciada no século XIX.


Pesquisadores defendem que países com histórico de envolvimento na região deveriam contribuir para soluções diplomáticas e ações de desenvolvimento, enquanto a diáspora africana também é chamada a participar do debate sobre reparação histórica.

A performance de Mboladinga, nesse contexto, reforça a permanência do debate sobre colonialismo, memória e soberania africana, transformando o ambiente esportivo em palco de manifestação cultural e política.

Fonte: Agência Brasil