Analistas apontam que classificação de facções brasileiras como terroristas pode ampliar interferência externa na América Latina - © Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

Porto Velho, RO — A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas vem sendo interpretada por especialistas em geopolítica, economia e relações internacionais como parte de uma estratégia de ampliação da influência norte-americana sobre países da América Latina.

Segundo analistas consultados pela Agência Brasil, a medida estaria alinhada à nova política externa do governo do presidente Donald Trump, baseada no conceito de “soberania limitada” para países latino-americanos.

Para os especialistas, a classificação pode servir como instrumento de pressão política e diplomática, além de abrir espaço para possíveis intervenções externas.

O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Borba Casella, afirmou que o enquadramento de grupos como organizações terroristas amplia os poderes de atuação do governo norte-americano.

Segundo o especialista, a legislação dos EUA permite ações contra integrantes dessas organizações sem necessidade de declaração formal de guerra ou autorização do Congresso americano.

Casella citou como exemplo a atuação dos Estados Unidos em relação ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores.

Já o cientista político e especialista em relações internacionais Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que a medida integra uma estratégia mais ampla do governo Trump para reafirmar a influência dos EUA na região.

“Os EUA estabelecem o fato de que os países da América Latina têm soberania limitada pelos interesses americanos. E eles podem intervir sempre que acharem necessário, conforme os parâmetros americanos”, declarou.

Em novembro de 2025, o governo Trump divulgou a nova Estratégia Nacional de Segurança, documento que estabelece como prioridade a ampliação da presença e da influência norte-americana na América Latina.

Especialistas em geopolítica apontam que essa postura mais agressiva na política externa dos Estados Unidos também está relacionada à crescente influência econômica e tecnológica da China no cenário internacional.

Soberania do México

Além do Brasil, analistas lembram que medidas semelhantes já foram adotadas em relação ao México, onde cartéis criminosos também passaram a ser classificados como organizações terroristas.

Segundo Teixeira da Silva, após a classificação de facções mexicanas, os Estados Unidos enviaram agentes da CIA ao território mexicano sem autorização formal do governo local.

O episódio gerou tensão diplomática após a morte de dois agentes norte-americanos em um acidente de carro ocorrido em abril deste ano.

Pressão política e diplomática

Para o professor de economia internacional da UFRJ, Luiz Carlos Prado, a medida pode representar uma tentativa de subordinar políticas internas brasileiras aos interesses estratégicos de Washington.

“Significa que o Brasil não deve ser um país soberano, que a soberania do Brasil está subordinada ao poder político americano”, avaliou o especialista.

Prado também alertou para o risco de grupos internos no Brasil serem associados, sem comprovação, ao apoio a organizações classificadas como terroristas.

Segundo ele, isso poderia ampliar pressões políticas e justificar medidas de intervenção diplomática ou econômica.

Os especialistas ressaltam que o debate envolve questões relacionadas à soberania nacional, segurança internacional e relações diplomáticas, temas que seguem no centro das discussões sobre a política externa dos Estados Unidos para a América Latina.

Fonte: Agência Brasil