Declarações do presidente norte-americano geram críticas de aliados e reacendem debate sobre dependência europeia na aliança militar - Foto: Reuters/Jonathan Ernst

Porto Velho, RO — O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar tensão diplomática ao menosprezar o peso dos países europeus na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e minimizar as reações às ameaças de Washington de anexar a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca.

Em declarações recentes, Trump afirmou que Rússia e China não têm medo da Otan sem os Estados Unidos e colocou em dúvida o apoio europeu em um cenário de necessidade militar norte-americana. “Duvido que a Otan estaria lá para nós se realmente precisássemos dela”, disse o presidente.

Trump também voltou a destacar que, durante sua gestão, teria pressionado os países do bloco a aumentarem os investimentos em defesa, elevando os gastos de 2% para até 5% do PIB. Segundo ele, antes disso, os EUA arcavam de forma desproporcional com os custos da aliança. “Eu os levei a pagar imediatamente”, afirmou.

As declarações ocorrem em meio a críticas de aliados da Otan às reiteradas falas de Trump sobre a possível anexação da Groenlândia, considerada ilegal à luz do direito internacional. O presidente norte-americano justifica a intenção alegando riscos à segurança dos EUA, citando a presença de navios chineses e russos no Mar do Ártico.

Especialistas apontam que o interesse estratégico estaria ligado ao avanço do comércio pelo Ártico, impulsionado pelo derretimento das calotas polares, o que pode reduzir custos logísticos nos próximos anos e ampliar a disputa geopolítica na região.

A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, reagiu com firmeza ao afirmar que um ataque de um país da Otan contra outro membro representaria “o fim de tudo” para a aliança. Em comunicado conjunto divulgado nesta terça-feira (6), França, Alemanha, Reino Unido, Portugal, Espanha, Itália, Polônia e Dinamarca defenderam a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia.

O documento ressaltou que cabe exclusivamente à Dinamarca e à Groenlândia decidir sobre assuntos relacionados ao território, embora reconheça os EUA como parceiro essencial na manutenção da segurança no Ártico.

Para o major-general português Agostinho Costa, especialista em geopolítica, a resposta europeia foi tímida e as declarações de Trump configuram “bullying puro e duro” contra os aliados. Segundo ele, a Europa vive uma espécie de orfandade estratégica em relação aos Estados Unidos.

O general avalia ainda que o aumento dos gastos militares europeus, impulsionado pela pressão norte-americana, resultou em uma transferência de recursos para a indústria bélica dos EUA. “A indústria militar europeia não está suficientemente desenvolvida para suprir essa demanda”, concluiu.

Fonte: Agência Brasil