Porto Velho, RO – O mês de novembro é marcado por duas datas simbólicas para a luta antirracista no Brasil — o Dia Nacional de Combate ao Racismo (18) e o Dia da Consciência Negra (20). Mais do que momentos de celebração ou lembrança histórica, essas datas evidenciam que o enfrentamento ao racismo permanece um desafio urgente, estrutural e ainda presente no cotidiano da população negra.
A memória da escravidão, maior e mais longa experiência escravocrata das Américas, segue refletida nas desigualdades atuais. Em “Escravidão – Volume I”, Laurentino Gomes relata episódios brutais como os tubarões que acompanhavam os navios negreiros esperando pelos corpos jogados ao mar — uma imagem que sintetiza o horror vivido por milhões de africanos sequestrados.
Estima-se que cerca de 4 milhões de africanos escravizados foram trazidos ao Brasil, que manteve o sistema por quase quatro séculos, encerrado oficialmente há apenas 137 anos. O intervalo curto ajuda a explicar por que suas consequências ainda se expressam de forma tão profunda na sociedade.
Racismo estrutural: uma ferida aberta
Uma pesquisa divulgada em 2024 pelas organizações Vital Strategies e Umane, com apoio do Ministério da Igualdade Racial, revelou dados alarmantes: 84% das pessoas pretas entrevistadas afirmaram já ter sofrido discriminação racial. Entre pessoas brancas, o índice caiu para 8,3%.
As mulheres pretas são o grupo mais atingido: 72% relataram mais de um tipo de discriminação. Elas acumulam opressões de gênero e raça, refletidas em violência, desemprego e exclusão dos espaços de poder.
Zumbi dos Palmares: legado que inspira gerações - Foto: Agência Brasil
O Atlas da Violência reforça as desigualdades: uma pessoa negra tem risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio, e dados do IBGE mostram que pretos e pardos representam 72,9% dos moradores de favelas e possuem taxas de desemprego superiores às de pessoas brancas.
Vozes da resistência
Para a professora e advogada Luciane Lima Costa e Silva Pinto, apesar dos avanços simbólicos, ainda há muito a ser enfrentado. Ela relembra a conquista do feriado de 20 de novembro como vitória histórica, mas frisa que o país precisa debater não apenas respeito, mas acesso, oportunidades e presença negra em espaços de decisão.
“Essa data é um marco da luta de pessoas pretas por direitos. Deveríamos discutir onde estão os jovens negros na universidade, por que não estão ali, como garantir mais médicos, engenheiros e arquitetos negros”, pontuou.
Luciane também destaca o racismo estrutural presente nas escolhas cotidianas, como contratações e processos seletivos, onde a cor da pele ainda define oportunidades.
Mulheres negras: resistência e liderança
A coordenadora nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), Rosa Negra, afirma que o racismo é universal, mas seus efeitos são especialmente cruéis para as mulheres negras. Para ela, novembro é um mês de memória, mas sobretudo de luta.
“Sofremos a interseção do racismo e do machismo. Enfrentamos desemprego, violência e exclusão dos espaços de poder. Mas também somos as que mais constroem caminhos de esperança e sustentam a comunidade”, disse.
Representatividade e enfrentamento
A ex-deputada estadual Rosária Helena, uma das raras mulheres negras eleitas em Rondônia, relata que enfrentou episódios explícitos de racismo na política, ambiente historicamente dominado por homens brancos.
“Não é simples. As pessoas não estavam acostumadas a ver uma mulher negra em posição de destaque. Já vivi situações de racismo nu e cru, e enfrentei todas elas”, afirmou.
Para a juventude negra, ela deixa um recado direto: “Tenham coragem de assumir sua negritude. Se precisarem enfrentar para impor respeito, façam esse enfrentamento”.
Além das datas, ações
O mês de novembro reforça que, apesar das conquistas simbólicas, o combate ao racismo exige ações concretas: políticas públicas, representatividade, igualdade de oportunidades e mudança cultural profunda.
O enfrentamento ao racismo é diário — e a consciência negra, permanente.
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